Daniel, com a adaga na mão, caminhou em direção a Letícia. Seus passos eram leves e silenciosos, que até Aleph se surpreendeu com o ar sombrio em seu olhar. A mão que segurava a adaga tremia levemente, e sua voz, ao se dirigir a Letícia, trazia um tom de pesar.
— Não vai ordenar que seu cavaleiro a defenda? — perguntou, a voz quase um sussurro.
Aleph, atento, buscava uma oportunidade para desarmar o jovem. Letícia, percebendo a intenção de Aleph, estendeu o braço, impedindo-o de agir. Mantendo o olhar firme em Daniel, ela falou com calma e autoridade:
— Cavaleiro Daniel, mostre-me sua lealdade.
Em um movimento rápido e inesperado, Daniel girou, lançando a adaga diretamente no peito do líder dos mercenários, matando-o instantaneamente. Um dos mercenários, enfurecido, avançou sobre Daniel. O jovem, com uma agilidade surpreendente, saltou e, em pleno ar, sacou uma pequena lâmina escondida em sua bota, atingindo o homem na cabeça.
Aleph, sem hesitar, puxou Letícia para perto, protegendo-a do horror da cena. Abraçou-a, escondendo seu rosto em seu peito enquanto Daniel, com uma eficiência letal, eliminava os mercenários restantes.
A luta terminou tão rapidamente quanto começara. Daniel, largando as armas no chão, caiu de joelhos diante de Letícia, o corpo tremendo e as lágrimas escorrendo pelo rosto.
Imediatamente, Aleph pegou sua espada através de um portal discreto e apontou a lâmina para Daniel, pronto para proteger Letícia. Mas antes que pudesse avançar, Letícia ergueu a mão:
— Aleph, espere!
Aleph hesitou, embainhando a espada, mas permaneceu alerta. Daniel, de joelhos, chorava copiosamente, o olhar fixo em suas mãos manchadas de sangue. Letícia se aproximou, tocando seu ombro com um gesto de compaixão.
— Levante-se, Daniel — disse, estendendo-lhe a mão.
Daniel, porém, não aceitou sua ajuda.
— Estou sujo… — sussurrou, a voz embargada pela dor. — Tentei matá-la… Como pode confiar em mim?
— Cabe a você decidir se aceita a mão que lhe ofereço — respondeu Letícia, com compaixão. — Eu confio em sua vontade de aprender.
Lágrimas escorreram pelos olhos de Daniel. Naquele momento, ele compreendeu que Letícia era a primeira pessoa, em todos os seus anos de vida, a tratá-lo como um ser humano, e não como uma simples arma. A vulnerabilidade e o alívio misturaram-se em seu semblante enquanto, hesitante, ele estendia a mão para a dela.
Deixando Letícia em um local seguro, Aleph retornou com Daniel ao cenário do confronto. Quando chegaram, Aleph, com um olhar gélido, empurrou Daniel contra uma árvore, segurando-o firmemente no ombro.
— Não sei por que Letícia confia em você — disse, a voz baixa e ameaçadora. — Mas não se atreva a traí-la. Não se torne um cão sarnento que morde a mão que o alimenta. Entendeu?
Aleph o soltou abruptamente. Daniel, humilhado, mas compreensivo de que conquistar a confiança de todos seria uma jornada difícil. Pegou uma pá, preparando-se para a tarefa sombria de enterrar os corpos. Aleph, porém, o interrompeu com um gesto. Estendeu a mão, e um portal se abriu no solo. Num instante, os corpos desapareceram, enterrados com precisão e sem esforço.
Daniel, boquiaberto, encarou Aleph, a incredulidade estampada em seu rosto.
— Quem… quem é você, afinal?
— Alguém que está tentando ganhar a confiança de um assassino.
— Isso foi… irado! — exclamou Daniel, os olhos brilhando de admiração.
...
Na hospedaria, Daniel revelou a Letícia que sabia de sua verdadeira identidade desde o início e informou que vários mercenários, de diferentes regiões, haviam sido contratados para persegui-los.
— Você sabe quem está atrás da minha vida? — perguntou Letícia, apreensiva.
— Investiguei um pouco antes de… aceitar a missão — respondeu Daniel. — Descobri que se trata de um certo General Shineid, um homem com muita influência no Reino do Inverno. Mas algo me intrigou… Por que ele contrataria mercenários em vez de ordenar que as shineideas cuidassem disso?
Daniel desconhecia a existência da barreira mágica que protegia o Reino da Primavera, tornando impossível a entrada das shineideas em seu território.
— Nos dando essas informações, você parece até um espião aliado — comentou Letícia, sorrindo.
— Esse é um elogio e tanto! — Daniel riu, satisfeito. — Sempre quis ser espião.
Letícia o observou por um instante, avaliando sua determinação.
— Nesse caso… — começou Letícia, um brilho travesso em seus olhos. — Aceitaria uma missão em meu nome?
— Minha primeira missão como cavaleiro?! — perguntou Daniel, os olhos brilhando de entusiasmo.
— Certamente, Sir Daniel — confirmou Letícia, com um sorriso.
A alegria de Daniel era visível, e ele respondeu com uma reverência desajeitada:
— Diga-me o que deseja, Vossa Alteza! Será uma honra cumprir suas ordens! — exclamou, imitando os diálogos dos heróis de seus livros favoritos. — "Sempre quis dizer isso!" — pensou, satisfeito.
Letícia solicitou que Daniel investigasse a fundo o General Shineid, descobrindo quem era o verdadeiro mandante dos ataques e se Laurenn também corria perigo.
Aleph, observando a cena com incredulidade, questionou-se se estavam falando sério ou uma estranha encenação. Daniel, ansioso para começar, anunciou que partiria imediatamente. Aleph se virou para Letícia:
— Com sua permissão, Vossa Alteza, gostaria de oferecer algumas instruções ao cavaleiro antes de sua partida.
Letícia assentiu, deixando claro que confiava na experiência de Aleph para orientar Daniel.
Atrás da hospedaria, em um local isolado onde apenas o relinchar dos cavalos quebrava o silêncio. Um deles, de aparência simples, pertencia a Daniel, que o utilizaria para seguir em direção ao Reino do Inverno.
Daniel, visivelmente consciente da desconfiança que Aleph tinha nele, falou com firmeza:
— Sei que não confia em mim. Mas, provarei que está enganado. Jamais trairei a princesa Letícia.
Aleph, sem dizer uma palavra, jogou um pequeno objeto na direção de Daniel. Era uma chave de metal prateada, intricadamente trabalhada.
— O que é isso? — perguntou Daniel, examinando a chave com curiosidade.
Ele olhou para Aleph com um semblante de dúvida, e o cavaleiro, com a expressão inalterada, explicou:
— Essa chave pode abrir portais ocultos. Ao entrar em contato com um portal sincronizado, a magia é ativada, permitindo a passagem.
Aleph entregou a Daniel um pergaminho com a localização de alguns portais ao longo do caminho para o Reino do Inverno.
— Esses portais… — exclamou Daniel, surpreso. — Vão me ajudar na missão? Até que você é uma pessoa legal!
— Considerarei isso um elogio — respondeu Aleph, com um leve sorriso.
Aleph explicou a Daniel como ativar os portais corretamente, e Daniel ficou boquiaberto com a rapidez com que poderia atravessar para o Reino do Inverno. Ele havia imaginado que a viagem seria longa e cheia de obstáculos, mas agora, com essa nova habilidade, a missão parecia mais alcançável.
Aleph retornou à hospedaria, encontrando Letícia na varanda, o olhar perdido na paisagem do jardim. A hospedaria, maior e mais elegante que a anterior, oferecia um ambiente mais tranquilo e acolhedor.
Letícia, porém, permanecia absorta em seus pensamentos, mas seu olhar demonstrava uma inquietação crescente. Ele se aproximou e se colocou ao seu lado, mas Letícia continuava em silêncio. Aleph podia sentir a tensão no ar. Ela estava consumida por dúvidas, o medo estampado em seu rosto, mas ela não sabia como expressá-lo.
— "Por que estão querendo me matar? O que fiz de errado? Será que Laurenn também está em perigo?" — esses eram os pensamentos que corriam por sua mente, e a incerteza a fazia tremer, mesmo que sutilmente.
Aleph, percebendo seu estado, e, sem dizer nada, pegou o casaco que carregava e a cobriu com ele, colocando uma mão reconfortante sobre o ombro de Letícia, num gesto silencioso de conforto.
— Partiremos amanhã para o Reino da Primavera — disse, com sua voz calma e tranquilizadora. — Lá, sua segurança estará garantida.
Letícia o encarou, os olhos marejados de incerteza. Aleph sentiu uma forte vontade de abraçá-la, de protegê-la de todos os perigos que a cercavam, mas se conteve. Letícia, porém, tomou a iniciativa. Ela tocou o braço dele, e ele, sem hesitar, deslizou a mão por sua cabeça com um gesto gentil. Mas então, para sua surpresa, Letícia se aproximou, seus braços envolvendo-o de maneira tímida e trêmula. Aleph ficou imóvel por um momento, surpreso pela ação dela, mas logo sentiu o calor do abraço e a leveza das mãos dela segurando sua roupa com firmeza, como se se ancorasse nele.
— Estarei ao seu lado, Letícia — sussurrou Aleph, retribuindo o abraço. — "Ela é tão forte, mas no fundo, é apenas uma jovem que sempre viveu protegida pelos muros do castelo. Essa situação toda deve ser aterradora para ela." —pensou.
— Obrigada, Aleph — murmurou Letícia, a voz abafada. — Neste momento, você é o único em quem posso confiar.
Aleph, tocado pela sinceridade dela, colocou a mão gentilmente sobre sua cabeça, acariciando seus cabelos com um gesto suave e protetor.
— Pode ter certeza de que irei lhe proteger. — prometeu, com convicção.