Chapter 8 - Noite Gélida

Uma noite fria e escura, assim como o inverno rigoroso que se abatia sobre a região, serviu de palco para o retorno de Kael e Elisabeth. As estrelas, normalmente brilhantes no céu limpo de Valoria, estavam encobertas por nuvens espessas, como se até os astros compartilhassem da apreensão que pairava no ar. Eles entraram na casa, silhuetas cansadas recortadas contra a luz fraca da lareira, com expressões exaustas, roupas sujas e rasgadas, e uma mistura inquietante de alívio e preocupação em seus rostos.

Helena os recebeu na porta, o coração palpitando em um ritmo descompassado, um misto de alívio por vê-los vivos e um medo gélido ao notar os sinais evidentes da batalha que haviam travado. Vargo, que estava engatinhando perto da lareira, percebeu instintivamente a tensão no ar. Seus grandes olhos azuis, normalmente cheios de curiosidade, agora refletiam a apreensão dos adultos. Ele se deteve, observando a cena com uma seriedade incomum para sua idade, compreendendo a gravidade do momento. Sophy, que estava sentada em um canto, tecendo uma pequena peça de roupa para Vargo, levantou-se rapidamente. Seu rosto delicado, emoldurado por cabelos prateados, estava pálido, e seus olhos élficos, normalmente brilhantes, expressavam alívio e preocupação em igual medida.

"Nós conseguimos", disse Kael, sua voz rouca e carregada de cansaço, quebrando o silêncio tenso. Ele tentou sorrir, mas o esforço revelou a exaustão que o consumia. "Nós eliminamos os goblins… mas eles não eram os únicos. Havia um grupo de orcs… Usando os para pilhar as fazendas no extremo sul da cidade."

Helena, mesmo aliviada por vê-lo vivo, não conseguia conter a onda de preocupação que a inundava. Ela examinou Kael em busca de ferimentos visíveis, seus olhos percorrendo cada centímetro de seu corpo, como se pudesse, através do toque visual, curar qualquer dano que ele tivesse sofrido. "Vocês estão bem?", ela perguntou, sua voz embargada pela emoção. "O que aconteceu?"

Kael suspirou, sentando-se pesadamente em uma cadeira perto da lareira. O movimento revelou uma careta de dor, e Helena notou um rasgo em sua camisa, na altura do ombro, revelando um curativo improvisado, manchado de sangue seco. Elisabeth, que parecia ainda mais cansada do que Kael, sentou-se na poltrona onde Sophy costumava ficar, fechando os olhos por um momento, como se buscasse um breve refúgio da realidade brutal que haviam enfrentado.

"Foi mais difícil do que esperávamos", respondeu Kael, passando a mão pelo rosto, em um gesto que revelava o peso da experiência. "Os goblins eram numerosos… e estavam bem organizados. Descobrimos que eles estavam sendo liderados por um grupo de orcs das montanhas… que estavam formando um assentamento próximo das fazendas."

"Orcs?", Sophy perguntou, com um arrepio involuntário. A menção daquelas criaturas brutais, conhecidas por sua ferocidade e força, a fez estremecer. "Aqui, tão perto?"

"Sim", confirmou Elisabeth, abrindo os olhos e fixando seu olhar cansado em Sophy. Sua voz, normalmente suave e melodiosa, agora soava fraca e arrastada. "Eles estavam usando os goblins para saquear as fazendas… coletando suprimentos."

Kael continuou a narrativa, descrevendo os primeiros confrontos com os goblins e orcs, os aldeões e aventureiros feridos, e a luta desesperada para conter a ameaça. Ele falava em tom monocórdico, como se estivesse revivendo cada momento da batalha, cada golpe, cada grito de dor.

"Nós conseguimos interceptá-los, assim que eles atacaram a fazenda Elhood", continuou Kael, "mas foi apenas o começo, alguns dias depois eles vieram em maior quantidade junto de mais Orcs. Vários aldeões e aventureiros ficaram feridos, mas de alguma forma conseguimos matá-los." Kael fechou os olhos lembrando da cena com clareza, o cheiro de sangue, o som do aço contra aço, os gritos de guerra e os gemidos de dor. "Mas mesmo assim não acabou, eu e Elisabeth começamos nossa investigação e encontramos o assentamento dos Orcs. Depois de alguns dias observando suas ações conseguimos identificar o líder."

"Que era um Orc xamã", continuou Elisabeth, com a voz embargada. Ela estremeceu ao se lembrar da criatura, com seus olhos vermelhos brilhando com uma energia maligna, e os símbolos grotescos pintados em sua pele. "Então decidimos retornar e avisar as guildas"

"E foi quando tudo foi por água abaixo", disse Kael, tocando instintivamente o ombro ferido, onde uma cicatriz recente, ainda avermelhada, marcava sua pele. A lembrança da dor aguda e da sensação de impotência ao ser capturado ainda o assombrava. "Assim como nós encontramos o xamã, ele nos encontrou. Nós lutamos contra mais de cinquenta goblins e oito Orcs, sem considerar o xamã. Mas, como estávamos em grande desvantagem, acabamos por sermos capturados. Levamos muito tempo para conseguir nos libertar, mas o que nós vimos foi algo que eu nunca esperei passar."

Elisabeth, incapaz de conter as lágrimas, abaixou a cabeça, escondendo o rosto com as mãos. A lembrança do ritual cruel realizado pelo xamã, a visão dos corpos dos prisioneiros, exauridos e sem vida, a atormentava.

"O xamã constantemente lançava uma magia de ilusão para esconder o assentamento, porém ele não tinha mana o suficiente para manter tal magia, então ele recorria ao uso de humanos em um ritual para extrair sua mana e transformá-la em cristais mana.", Elisabeth completou, mantendo o olhar baixo, incapaz de encarar Helena ou Sophy. "Nenhum humano que passou pelo ritual sobreviveu."

Kael olhando para Elisabeth continuou "Nós nos mantivemos escondidos por dias, nos preparando, então o dia que o ritual seria realizado chegou novamente. Durante a noite, quando a maior parte da atenção estava voltada para os prisioneiros, e o foco do xamã estava no ritual, eu pulei do telhado em que eu estava, impulsionado pela magia de Elisabeth, e com a espada que havíamos conseguido, matando um goblin, eu cortei a cabeça do xamã.", Kael fala cerrando os punhos, lembrando do momento de puro instinto.

"Nesse momento, a magia que mantinha o assentamento escondido se desfez.", Elisabeth completou, com a voz embargada, mas com a determinação voltando a tona. "Então os Orcs mais próximos reagiram. Eu consegui lançar a magia de escudo de mana, mas só consegui manter a proteção de Kael por alguns segundos, eles eram muitos e logo o escudo começou a trincar. Quando quebrou, alguns cortes o acertaram."

"Porém, mesmo com o ferimento em meu ombro, eu consegui me distanciar dos Orcs, abrindo caminho pelos goblins até chegar a Elisabeth.", Kael fala, relaxando o aperto de suas mãos, sentindo a cicatriz repuxar levemente. "Quando cheguei no telhado em que ela estava, finalmente percebi que ainda estávamos perto de onde fomos capturados. E foi aí que Elisabeth lançou a magia flash de luz para o alto, chamando a atenção do grupo que nos acompanhava na missão e cegando os monstros ao nosso redor. A partir desse ponto, não demorou muito para o grupo que nos acompanhava e os outros aventureiros enviados pela guilda chegarem ao assentamento. Assim que eles chegaram, todos começamos a acabar com os goblins e Orcs da região. Então, finalmente, conseguimos resgatar os poucos sobreviventes que haviam sido sequestrados."

Helena, sentindo o peso do sofrimento que Kael e Elisabeth haviam suportado, não conseguiu mais conter as lágrimas. Ela se levantou e abraçou Kael com força, buscando conforto e transmitindo seu amor e alívio. As palavras pareciam insuficientes para expressar a profundidade de suas emoções. Ela apenas o apertou contra si, sentindo o calor de seu corpo, o ritmo de sua respiração, a prova de que ele estava vivo, de que ele havia retornado.

Após Helena se recompor um pouco, foi a vez de Sophy abraçar Elisabeth, apertando-a com uma força inesperada para sua pequena estatura. As lágrimas, antes contidas pelo choque e pela preocupação com Elisabeth, agora escorriam livremente pelo rosto da jovem elfa, molhando o manto de Elisabeth. "Eu fiquei com tanto medo", soluçava Sophy, agarrando-se à maga como se ela fosse sua única âncora em meio à tempestade. "Pensei que… pensei que tivesse perdido você também." Ela enterrou o rosto no ombro de Elisabeth, inalando o cheiro familiar de ervas e magia, um aroma que sempre lhe transmitira segurança e conforto, e que agora se misturava ao odor acre de sangue e batalha. A voz de Sophy, normalmente doce e melodiosa, era agora um fio trêmulo, quebrado pela emoção crua. "Não me deixe, Elisabeth por favor, não me deixe…"

Elisabeth envolveu Sophy em seus braços, acariciando seus cabelos prateados com ternura. "Shhh, está tudo bem, Sophy. Estou aqui, estou viva", sussurrou ela, com a voz embargada pela própria emoção, mas firme em sua tentativa de confortar a jovem. "Eu estou aqui agora. Nós passamos por muita coisa, mas estamos juntas agora." Ela sentiu o corpo de Sophy finalmente relaxar contra o seu e a apertou com mais força, transmitindo-lhe segurança e afeto. Então ela olhou para Kael sentindo a apreensão do que estava por vir.