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Chapter 10 - Reflexos Calmos de Dias Turbulentos

Os dias, antes marcados pela urgência e pelo terror da invasão dos goblins e orcs, lentamente se fundiram em semanas, e as semanas, imperceptivelmente, deslizaram para meses. A rotina na casa de Kael e Helena, agora um refúgio compartilhado com Elisabeth e Sophy, estabeleceu-se em um ritmo peculiar. Era uma cadência ditada pela tensão constante da segunda Dungeon que se erguia como uma ameaça silenciosa no horizonte, e pela necessidade de seguir em frente, apesar da incerteza.

Kael, dividido entre seu dever como guerreiro e seu profundo amor pela família, encontrava um equilíbrio precário. Ele aceitava missões menores nas proximidades da vila, tarefas que exigiam sua força e habilidade, mas que não o afastassem por longos períodos. Eliminava grupos de monstros que ousavam se aproximar demais da cidade, escoltava caravanas de mercadores que se arriscavam pelas estradas, e ajudava a reforçar as defesas da região, sempre com a consciência de que a verdadeira batalha ainda estava por vir. Cada partida era um aperto no coração, uma despedida silenciosa carregada de medo e esperança. Cada retorno era um alívio, um abraço apertado em Helena e Vargo, um breve momento de paz antes da próxima incursão. Kael aproveitava cada instante em casa para descansar, recuperar as forças, treinar com afinco, preparando-se para o inevitável confronto com os horrores da segunda Dungeon. Mas, acima de tudo, ele se dedicava a estar presente, a ser um pai para Vargo, um marido para Helena, um amigo para Elisabeth e Sophy, um porto seguro em meio à tempestade.

O tempo, que antes parecia correr em um ritmo frenético, agora se arrastava, carregado de expectativa e apreensão. Vargo, o pequeno bebê com a mente de um cientista aprisionada, celebrava silenciosamente seu primeiro ano de vida naquele mundo estranho e mágico. As grandes comemorações, Vargo percebeu através de sua observação atenta, eram reservadas para os marcos de cinco em cinco anos, um costume daquele mundo que ele achava peculiar, mas que não diminuía a importância da data em seu íntimo.

Um ano. Um ano desde que ele havia renascido naquele corpo minúsculo, naquele mundo governado por forças que ele antes considerava impossíveis. Um ano de aprendizado constante, de adaptação dolorosa, de frustração crescente, mas também de descobertas fascinantes. Vargo havia dominado a arte de engatinhar, e agora se movia pela casa com uma velocidade e destreza surpreendentes para sua idade. Suas tentativas iniciais de comunicação, antes restritas a resmungos e balbucios, haviam evoluído para palavras claras e frases simples, cuidadosamente selecionadas para manter a fachada de um bebê normal. Ele dizia "mamãe" com um sorriso, quando Helena o pegava no colo, uma palavra carregada de um afeto novo e profundo que ele começava a sentir. Ele pedia "água", "comida", "não", palavras simples, mas essenciais para sua sobrevivência e para a interação com o mundo ao seu redor. Ele fingia não entender as histórias que Helena lhe contava, apontava para as figuras nos livros com um interesse infantil fabricado, pedia para ser pego no colo, desempenhando o papel de um bebê com perfeição, enquanto sua mente fervilhava com cálculos, teorias e perguntas sem resposta.

Mas o verdadeiro progresso de Vargo, aquele que o impulsionava para frente, acontecia nas sombras, longe dos olhares atentos de sua família. Seu vocabulário, vasto e complexo, adquirido através da leitura dos livros de Helena, permanecia oculto. Ele se deleitava com as leituras em voz alta de Helena, que, sem saber, alimentava sua sede insaciável por conhecimento, fornecendo-lhe as peças do quebra-cabeça que ele tentava desesperadamente montar.

Helena, uma leitora ávida, possuía uma coleção surpreendente de livros para os padrões daquele mundo, um tesouro inesperado para Vargo. Havia contos de fadas, histórias de heróis e, para a sorte do antigo físico, livros sobre magia, volumes preciosos que descreviam os princípios da energia arcana, os diferentes tipos de feitiços, os rituais e as lendas que permeavam aquele universo. A paixão de Helena, no entanto, não era a prática da magia em si, mas a história da magia. Ela lia em voz alta sobre os grandes magos do passado, sobre as origens da energia mística, sobre os diferentes tipos de magia e suas manifestações, sobre rituais antigos e esquecidos, lendas sobre criaturas mágicas e teorias sobre a própria criação do mundo.

Vargo absorvia cada palavra, cada detalhe, cada conceito, como uma esponja sedenta. Ele memorizava os nomes dos elementos mágicos, as descrições detalhadas dos feitiços, os símbolos e runas associados a cada tipo de magia, construindo um mapa mental daquele novo universo. Ele ansiava por colocar as mãos nos livros, folhear as páginas, estudar os diagramas, mas Helena, sempre vigilante, os mantinha fora de seu alcance, protegendo os volumes frágeis e valiosos de suas mãozinhas curiosas. "Esses livros são muito valiosos, Vargo", dizia ela, com carinho, mas com firmeza, enquanto o afastava das estantes. "Eles são frágeis e podem se estragar facilmente. Quando você for mais velho, eu te ensino tudo sobre eles." Vargo, frustrado, resmungava e fazia beicinho, como qualquer criança faria, mas em sua mente, ele já planejava como contornar aquela restrição, como ter acesso ao conhecimento que ele tanto desejava.

A existência de livros de magia, e a relativa raridade deles, intrigava profundamente Vargo. Ele havia descoberto, através das conversas de Helena com Elisabeth e Sophy, que novos livros de magia surgiam geralmente de duas formas: eram encontrados em Dungeons, locais de perigo e mistério, ou eram criados por magos excepcionalmente talentosos, um processo extremamente arriscado.

A criação de um novo feitiço, Vargo aprendeu, era um empreendimento perigoso, uma dança delicada com forças desconhecidas. Muitos magos pereciam tentando, consumidos pela própria energia que tentavam controlar, um destino que ecoava sinistramente com a explosão do reator que havia ceifado sua vida anterior. Era por isso que os livros de magia eram tão valorizados, e por isso que a Guilda dos Magos guardava seus segredos com tanto zelo, protegendo o conhecimento como um tesouro inestimável.

Vargo, com sua mente de cientista, via a magia não como algo místico e inefável, mas como um desafio, um quebra-cabeça complexo a ser resolvido, um conjunto de leis a serem desvendadas. Ele estava determinado a entender os princípios da magia, a dominar suas técnicas, a desvendar seus mistérios mais profundos. E ele sabia que, para isso, precisaria ter acesso aos livros, a fonte de todo o conhecimento mágico. De um jeito ou de outro, ele conseguiria. A ideia de estudar a magia de maneira formal, nas escolas de magia de Valoria, também cruzava sua mente, mas ele sabia que isso teria que esperar, que seu corpo infantil ainda não estava pronto para tal empreendimento. Por enquanto, ele se contentaria em aprender secretamente, observando, experimentando, crescendo, até que chegasse o momento certo.