Os dias se transformaram em semanas, as semanas em meses, e a ausência de notícias da Dungeon começou a pesar sobre a vila. A esperança inicial foi substituída por uma crescente ansiedade. Rumores começaram a circular, sussurros de que algo havia dado terrivelmente errado.
A missão, que deveria durar algumas semanas, no máximo alguns meses, se estendia sem fim. Quase oito meses se passaram, um período de tempo absurdamente longo para uma incursão em uma Dungeon grau C.
E então, em uma manhã fria e nublada, a notícia finalmente chegou. Um pequeno grupo de aventureiros e magos havia retornado da Dungeon. Eles estavam feridos, exaustos e traumatizados.
A notícia se espalhou como fogo pela vila, e Helena, ao ouvir os rumores, sentiu um misto de alívio e pavor. Alívio porque havia sobreviventes, pavor porque o número de retornados era tão pequeno.
Pela primeira vez desde a saída de Kael e Elisabeth, Helena decidiu sair da vila. Ela precisava saber o que havia acontecido, precisava saber se Kael e Elisabeth estavam vivos. Ela vestiu Vargo com roupas quentes, pegou Sophy pela mão, e juntas, elas partiram para a cidade vizinha, onde a sede da guilda dos aventureiros estava localizada.
A cena que encontraram ao chegar à guilda era desoladora. A praça, antes vibrante de atividade, agora estava tomada por um silêncio sombrio, interrompido apenas por gemidos de dor e sussurros de desespero.
Aventureiros e magos, antes orgulhosos e confiantes, agora estavam prostrados, com olhares vazios e expressões de choque. Muitos estavam gravemente feridos, com membros faltando, queimaduras extensas e ferimentos que pareciam desafiar a cura mágica.
O ar estava impregnado com o cheiro de sangue, suor e magia corrompida. A atmosfera era de derrota, de desespero, de perda.
Helena sentiu seu coração se despedaçar. Ela apertou Vargo contra o peito, como se quisesse protegê-lo daquela realidade brutal. Ela puxou Sophy pela mão, e juntas, elas começaram a procurar por rostos conhecidos.
E então, em meio à multidão de feridos e traumatizados, Helena viu um rosto familiar. Edmund, um ranger experiente que havia participado da mesma expedição que Kael, Helena e Elisabeth anos atrás, estava sentado em um canto, conversando com o mestre da guilda local.
Edmund estava ferido, com o braço enfaixado e o rosto coberto de arranhões, mas vivo. Helena sentiu uma pontada de esperança. Se Edmund havia sobrevivido, talvez Kael e Elisabeth também tivessem.
Com o coração batendo forte, Helena se aproximou de Edmund, puxando Sophy consigo. "Edmund!", ela chamou, com a voz embargada. "O que aconteceu? Onde estão Kael e Elisabeth?"
Edmund, ao ouvir a voz de Helena, levantou a cabeça lentamente. Seus olhos, antes fixos em um ponto distante, encontraram os de Helena, e a expressão de choque e dor se intensificou. Ao ver Vargo, aninhado nos braços de Helena, Edmund não conseguiu mais conter as lágrimas.
"Helena… ", ele murmurou, com a voz embargada. "Eu… eu sinto muito."
Ele se levantou com dificuldade, apoiando-se no balcão. As palavras saíram de sua boca como um lamento, carregadas de culpa e sofrimento. "Kael… ele me salvou", disse Edmund, soluçando. "Ele me empurrou para longe antes da armadilha se ativar, ele… se sacrificou para me dar uma chance de escapar… mas eu… eu não consegui salvá-lo."
O mundo de Helena pareceu desabar naquele instante. As palavras de Edmund a atingiram como um golpe físico, arrancando o ar de seus pulmões. Ela sentiu suas pernas fraquejarem, sua visão escurecer, e a força que a mantinha de pé se esvair como areia entre os dedos.
Se não fosse por Sophy, Helena teria caído. A jovem elfa, percebendo o estado de choque de sua amiga, rapidamente a segurou, amparando-a antes que ela desabasse. Vargo, sentindo a angústia de sua mãe, agarrou-se a ela com força.
"Helena!", Sophy exclamou, preocupada. "Você precisa se sentar."
O mestre da guilda, um homem corpulento e de expressão severa, mas com um olhar de compaixão, percebeu a situação. Ele se aproximou de Helena e, gentilmente, a guiou para uma sala separada, longe da multidão e do caos.
"Por favor, sente-se", disse ele, indicando uma cadeira. "Vou pedir para trazerem um chá calmante para você."
Helena, ainda em estado de choque, obedeceu mecanicamente. Ela se sentou, com Vargo ainda em seus braços, tremendo. Sophy se ajoelhou ao seu lado, segurando sua mão e oferecendo-lhe apoio silencioso.
Uma das atendentes da guilda, uma jovem de cabelos ruivos e olhos gentis, entrou na sala com uma bandeja, onde fumegava uma xícara de chá. Ela colocou a bandeja sobre uma mesa próxima e se aproximou de Helena.
"Beba um pouco, senhora", disse ela, com suavidade. "Vai ajudá-la a se acalmar."
Helena, com as mãos trêmulas, pegou a xícara e levou-a aos lábios. O chá, quente e aromático, desceu por sua garganta, trazendo um mínimo de alívio à sua angústia. Mas a dor da perda, a imagem de Kael se sacrificando, a incerteza sobre o destino de Elisabeth… tudo isso a consumia, como um fogo que ardia em seu peito.
Naquele momento, Helena se sentia completamente perdida. Seu mundo, antes seguro e cheio de esperança, havia se despedaçado. Ela estava sozinha, com um filho pequeno para criar, em um mundo ameaçado por uma Dungeon misteriosa e poderosa. E a única pessoa que poderia ajudá-la a enfrentar tudo isso… havia partido.
Helena, ainda atordoada pela notícia devastadora, tentava processar as palavras do mestre da guilda, que se apresentou como Gildon Stonehand, um homem de meia-idade, com cabelos grisalhos e um olhar que transmitia experiência e compaixão.
Gildon respirou fundo, ajeitando-se na cadeira antes de começar sua explicação. "Senhora Silvering", ele começou, com uma voz grave, mas gentil. "Entendo sua dor e sua necessidade de respostas. Farei o possível para esclarecer o que sabemos até agora."
Ele fez uma pausa, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado. "Os relatos dos sobreviventes pintam um quadro complexo e perturbador. A Dungeon, em seus níveis iniciais, de fato correspondia à classificação C. Os monstros, as armadilhas, o ambiente… tudo estava dentro do esperado para uma Dungeon desse nível apenas com alguns monstros evoluídos."
"No entanto", continuou Gildon, "havia uma peculiaridade. A Dungeon era uma Dungeon labirinto, um emaranhado de corredores e salas que desafiava a navegação. Isso, por si só, já era um fator de complicação, aumentando o tempo necessário para a exploração."
Helena assentiu, lembrando-se das histórias de Kael sobre Dungeons labirínticas.
"Tudo parecia seguir um curso relativamente normal, apesar dos desafios do labirinto", prosseguiu Gildon. "Até que o grupo principal, do qual seu marido e Elisabeth faziam parte, encontrou o chefe da Dungeon."
Ele fez uma pausa dramática, e Helena sentiu seu coração disparar. "O chefe", Gildon continuou, com um olhar sombrio. "Não correspondia à classificação da Dungeon. Os relatos indicam que ele possuía força, habilidades e resistência equivalentes a um chefe de Dungeon de grau B. Uma discrepância alarmante."
Helena sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Um chefe de grau B em uma Dungeon de grau C? Isso era quase inédito.
"Mesmo assim", Gildon se apressou em acrescentar, "o grupo estava preparado. Eles eram experientes, poderosos. Eles conseguiram lutar contra o chefe e, surpreendentemente, derrotá-lo."
Um fio de esperança se acendeu no peito de Helena. Se eles haviam derrotado o chefe…
Mas Gildon logo tratou de extinguir essa esperança. "A vitória, infelizmente, foi o gatilho para o verdadeiro desastre", disse ele, com pesar. "No momento em que o chefe caiu, um círculo de teletransporte se ativou sob seus pés. Um círculo mágico de origem desconhecida, que não deveria estar lá."
"Teletransporte?", Helena perguntou, confusa. "Para onde?"
Gildon balançou a cabeça. "Não sabemos ao certo. Mas, pelos relatos, e pelas características do círculo, tudo indica que esta Dungeon… é de múltiplos graus e andares."
"Múltiplos graus?", Helena repetiu, incrédula. "Isso é... possível?"
"Extremamente raro", confirmou Gildon. "Mas não impossível. Existem registros históricos de Dungeons assim. Elas são como camadas, cada uma com um nível de dificuldade diferente. O círculo de teletransporte, provavelmente, leva a uma camada mais profunda, mais perigosa."
Ele olhou para Helena com um misto de tristeza e esperança. "Senhora Silvering", disse ele, "há uma pequena chance de que seu marido, e Elisabeth, ainda estejam vivos. Se eles foram teletransportados para outro andar da Dungeon, eles podem estar lutando para sobreviver."
"Mas… ", Gildon hesitou, "devo alertá-la. As chances são mínimas. E mesmo que estejam vivos, as condições em uma camada mais profunda de uma Dungeon… são inimagináveis."
Ele se levantou e foi até uma gaveta, de onde retirou um saco de couro pesado. "Isso" disse ele, colocando o saco sobre a mesa, "é o pagamento pelos serviços prestados por seu marido, Kael. A guilda dos aventureiros honra seus compromissos, mesmo em tempos de tragédia."
Helena olhou para o saco de moedas, sentindo um nó na garganta. O dinheiro não traria Kael de volta, mas era um reconhecimento de seu valor e sacrifício.
E há mais uma coisa", acrescentou Gildon. "A Marquesa Eleonor, a pedido da Rainha, chegará em um mês. A situação é delicada e o qualquer movimento em falso e o nosso reino entraria em guerra, por isso a rainha decidiu que a Marquesa virá em uma missão, ela tentará resgatar quaisquer sobreviventes e avaliar a Dungeon."
"E se ela não conseguir…", Helena começou, mas não conseguiu terminar a frase.
"Se a situação se mostrar insolúvel", completou Gildon, com gravidade, "o mago real, Arquimago Faelan, será encarregado de selar a Dungeon. Mas é a única medida que podemos tomar para evitar que a influência da Dungeon se espalhe ainda mais."
Helena assentiu, sentindo-se impotente diante da magnitude da situação. Ela agradeceu a Gildon pelas informações e pela ajuda, e, com Sophy e Vargo, deixou a sede da guilda, com o coração pesado e a mente cheia de incertezas.
O caminho de volta para casa foi silencioso e sombrio. O peso da notícia, a incerteza sobre o destino de Kael e Elisabeth, e a perspectiva de um futuro incerto oprimiam Helena. Sophy, que normalmente era falante e curiosa, permanecia calada, com os olhos fixos no chão. Vargo, em seu colo, sentia a tensão e a tristeza de sua mãe, e se aninhava contra ela, buscando e oferecendo conforto.
A viagem pareceu durar uma eternidade. Quando finalmente chegaram em casa, o sol já havia se posto, e a escuridão da noite envolvia a pequena cabana. O interior, antes acolhedor e familiar, agora parecia frio e vazio, um reflexo do estado de espírito de Helena.
Assim que entraram, Sophy, que havia se mantido em silêncio durante toda a viagem, desabou. As lágrimas, antes contidas, começaram a fluir livremente, primeiro como um fio fino, depois como uma torrente. Ela se sentou em um banco perto da porta, soluçando e tremendo, incapaz de controlar a dor e o medo que a consumiam.
Helena, apesar de sua própria angústia, sentiu que precisava ser forte. Ela havia perdido o marido e sua melhor amiga, mas não podia se dar ao luxo de desabar. Ela tinha Vargo para cuidar, e Sophy, que agora precisava de seu apoio.
Com cuidado, Helena colocou Vargo no berço, certificando-se de que ele estava seguro e confortável. Em seguida, ela se aproximou de Sophy, ajoelhando-se ao seu lado e colocando a mão em seu ombro.
"Sophy", disse ela, com a voz suave, mas firme. "Eu sei que é difícil. Eu sei que você está com medo. Eu também estou."
Sophy levantou o rosto, os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar. "Kael… Elisabeth…", ela soluçou. "Eles… eles…"
"Eu sei", disse Helena, interrompendo-a. "Nós não sabemos o que aconteceu com eles. Mas nós não podemos perder a esperança. Ainda não."
Ela respirou fundo, tentando controlar suas próprias emoções. "Sophy, eu preciso de você", disse ela. "Eu não posso fazer isso sozinha. Eu tenho Vargo para cuidar, e agora… agora eu tenho você também."
Sophy olhou para Helena, surpresa. "Eu?", ela perguntou, com a voz fraca. "Mas… eu sou só a aprendiz de Elisabeth."
"Você é mais do que isso, Sophy", disse Helena, com firmeza. "Você é forte, corajosa e leal. Você é minha amiga. E eu preciso de você agora, mais do que nunca."
Ela se levantou e estendeu a mão para Sophy. "Venha", disse ela. "Vamos fazer isso juntas. Vamos cuidar uma da outra, e vamos cuidar de Vargo. E vamos esperar. Esperar por notícias, esperar por um milagre."
Sophy, enxugando as lágrimas, pegou a mão de Helena e se levantou. "Eu… eu vou tentar", disse ela, com a voz ainda trêmula.
"Eu sei que vai", disse Helena, com um sorriso triste.
Ela se dirigiu à poltrona perto da lareira, ao lado do berço onde havia deixado Vargo. Com cuidado, ela o pegou no colo, sentindo o calor de seu pequeno corpo contra o seu.
"Sophy, você poderia sentar-se com Vargo por um momento?", pediu Helena. "Vou preparar algo para comermos. Precisamos nos alimentar e descansar."
Sophy assentiu, ainda um pouco abalada, mas disposta a ajudar. Ela se ajeitou na poltrona, e Helena, com cuidado, colocou Vargo em seu colo. Ele, sentindo o coração de Sophy acelerado, parou de se mexer e a observou com seus grandes olhos azuis.
Enquanto Helena se dirigia à cozinha, ela sentiu uma pontada de esperança. Ela tinha Sophy, tinha Vargo, e tinha a promessa de que Kael havia feito. Ele voltaria. Ela precisava acreditar nisso. Ela escolheu acreditar nisso.
E, com essa tênue esperança em seu coração, Helena começou a preparar a janta, um ato simples e cotidiano que, naquele momento, representava um ato de resistência, um ato de fé, um ato de amor.