STELLA balançou a cabeça e recebeu o prato de volta. "Obri...gada."
Valeric a observava comendo silenciosamente os biscoitos e de repente pressionou o polegar na lágrima seca abaixo do olho esquerdo dela. Ele a encarava, e seus olhos momentaneamente se distanciavam e desfocavam.
"Quantos irmãos você tem?"
"D-você já não sabe?" O olho esquerdo dela tremeu um pouco sob o toque do polegar calejado dele.
"Eu não prestei atenção."
De qualquer forma, ela respondeu, "Dois. Apenas duas irmãs."
"Você é a mais velha?"
"Não. Sou a filha do meio."
"Entendi." Valeric soltou e se recostou na cadeira com as pernas cruzadas. Ele começou a observá-la.
A linha de visão de Stella constantemente cruzava com a dele, e ela estava um pouco desconfortável com o modo como ele não fazia nada além de observá-la como se ela fosse um filme. "Você não vai... comer?"
"Não." Ele disse, "Não estou com fome."
"Ok," ela murmurou baixinho e comeu o garfo cheio de massa que tinha pegado.
Valeric ainda não tirava os olhos dela, nem mesmo por um momento fugaz. Ele a encarava com uma meia mistura de fascínio e curiosidade que aumentava a confusão dentro dela.
Essa fascinação não se parecia com nada que ela já tinha visto em ninguém. Os outros emitiam uma observação astuta e, no final, algo parecido com avaliar seu valor. Mas Valeric... esse homem a olhava como... algo raro, algo que ele poderia estudar o dia todo e estranhamente nunca desvendar.
Ela rapidamente desviou o olhar e evitou seu gaze.
"Bem-vindo de volta, senhor," uma voz falou, fazendo com que ela levantasse a cabeça ao som de passos não familiares.
Bem à frente de Valeric, um jovem que parecia estar no final dos vinte anos estava com o corpo curvado e uma mão no peito. Ele estava paramentado com um terno escuro sob medida e uma camisa branca impecável, dando-lhe a aparência de um mordomo.
Seu cabelo castanho caía em uma franja sobre o rosto, e seus olhos âmbar se ergueram, cruzando com os dela azuis.
"Este é Theo, meu mordomo pessoal," Valeric apresentou com uma voz indiferente. "Ele estará sempre aqui se você precisar de um assistente."
Stella pigarreou. "Está bem. Tenho Alex comigo. Ele é suficiente para ajudar."
O copo de vidro que Valeric tinha na mão se quebrou em pedaços e o líquido vermelho derramou por toda sua calça.
"Eu não perguntei," ele disse com uma voz fria como gelo.
Ela o olhou, e eles ficaram sentados, examinando-se com olhares de pedra. Com um olhar de finalidade em seus olhos, ele quebrou o silêncio levantando-se e afastando-se com passos pesados.
Stella piscou rapidamente, imaginando o que poderia ter feito de errado. Ela estava apenas afirmando que ele não precisava passar o mordomo dele para ela. Alex era suficiente. Ele sempre encontraria defeito em cada palavra dela? A paciência e tolerância dele estavam se esgotando? E quando acabassem, ele—
"Jovem senhorita." Pela porta aberta da sala de jantar, Alex entrou e se aproximou da mesa. Ele se curvou respeitosamente com um sorriso leve e seus olhos preocupados ergueram-se para olhá-la. "Ele lhe feriu de alguma forma?"
Stella balançou a cabeça. "Não. Mas... só seria questão de tempo, certo? Eu não seria diferente, seria?"
Alex discordou, "Você vai ficar bem, jovem senhorita." Ele se levantou e se inclinou para sussurrar a ela, "Vou garantir que você saia daqui logo. Ele não terá a chance de lhe dar o mesmo destino que deu aos outros ômegas."
"Há uma razão pela qual eu vim para cá com você, afinal."
Ela se levantou rapidamente e agarrou a mão dele. Ela o puxou para fora da sala de jantar e para um lugar fechado onde poderiam conversar mais em segredo.
"O que você está tentando fazer, Alex?"
"Vou encontrar um jeito de tirar você daqui," Alex disse a ela. "Sua família pode não se importar com você, mas eu sim. Sempre me importei, então você não pode ter sua vida jogada fora assim. Vou encontrar uma forma de tirar você daqui, para algum lugar distante e onde nem ele nem sua família jamais a encontrarão. Algum lugar onde você será feliz."
"Você acha que isso é mesmo possível?" Stella riu de maneira piedosa para si mesma, achando as palavras dele ridículas. "Você acha que existe algum lugar na terra para onde eu correria e ele não me encontraria? Alex, ele é Valeric Jones. Toda a raça de lobisomens está nas palmas da família real dele. Você sabe disso."
Ela respirou trêmula e agarrou os ombros dele. "Se ele fosse apenas um alfa padrão, eu teria me salvado de uma forma ou de outra. Mas ele é Valeric, o único alfa supremo existente acima dos alfas padrão. Estou com medo... Alex. O mero som da voz dele me faz sentir como se eu estivesse me afogando no mar frio. Eu não sei... Eu não sei como ser cautelosa com ele. Quem sabe quando ele vai estourar e se livrar de mim como fez com os outros?"
"Ele é um homem complicado."
"E quanto ao Vincent?" Alex perguntou silenciosamente. "Você não iria embora com ele se ele eventualmente viesse lhe buscar?"
O zumbido lento do cérebro de Stella pegou no tranco depois de um segundo de deslumbramento, e ela piscou para afastar. "Ele ainda iria me querer quando descobrisse que eu fui casada à força?"
A mandíbula de Alex se apertou.
"E por que não iria?" Ele franziu a testa profundamente e ajustou o par de óculos que repousava sobre o nariz. "Jovem senhorita, você não quis isso. Sua família o forçou. Você não teve escolha. Ninguém pode resistir àquele homem. Ele é alguém que consegue o que quer de uma forma ou de outra. Você não teve escolha, Vincent tem que entender isso."
Stella recuou cambaleante, lançou olhares ansiosos ao redor e andou hesitante com seus braços envolvendo seu corpo. Alex a observou, e seus dedos se fecharam em punhos, seus dentes rangendo de frustração.
"Jovem senhorita, es-"
"Só vá, Alex. Vá embora."