Eu me pergunto o quão grata sou pela vida que estou levando.
Mesmo que tenha trabalhado muito duro para chegar até onde estou, depois de deixar a minha faculdade de economia e gestão de negócios acabei ingressando em uma grande empresa que trabalha no mesmo ramo no mercado nacional, claro que comecei como uma estagiária na época embora eu fosse uma adulta recebendo ordens de pessoas mais jovens que eu acabei conseguindo o meu lugar na empresa me tornando até mesmo uma funcionária modelo, claro que isso não é para me gabar realmente batalhei para que isso fosse possível.
Mesmo não tendo irmãos ou muitos amigos na minha infância eu tive uma infância e adolescência relativamente normais, era do tipo dedicada mas apenas para concluir meus afazeres, eu era bem tímida naquela época até meus 16 anos é claro já que comecei a ter um interesse maior em alguns dos meus colegas de turma então tive que mudar meu comportamento aos poucos, comecei até mesmo a me arrumar e conversar com outras pessoas então pude fazer alguns amigos mas devo confessar que foi por interesse um pouco mais além.
Eu não sou de destacar a minha aparência minha pele tinha uma tonalidade marrom clara e meus cabelos eram longos e lisos se quisesse até que poderia me encaixar ao grupo das garotas populares, mesmo não demonstrando, nem tendo o carisma ou a capacidade social e...uma série de outras coisas mas se eu me esforçasse com certeza eu poderia ser uma, mas no geral eu daria para o gasto, não é essa gíria que os jovens costumam usar?
Mesmo assim minhas tentativas foram fracassadas, eu não sabia muito bem interagir com os meninos então todo o meu relacionamento não passou do estágio da amizade, nem mesmo com as garotas tive tal sucesso, quem diria que eu seria um fracasso com os dois sexos, mesmo frustrada eu não me deixei me abalar por isso.
Tem sido assim desde então, vivendo a minha vida como uma solteirona de 30 anos de idade, vivendo na minha própria independência e solidão...
Acabou que cresci muito além da conta, isso também foi um dos fatores para que minha aparência se destacasse muito, não sou do tipo que come muito então fiquei bem magra, enorme e com os braços e pernas finas eu precisava compensar então eu me vestia adequadamente para compensar a falta de carne em meu corpo.
Durante minha vida universitária acabei tentando várias formas de encontro apelei para todos os tipos e até mesmo cheguei a me confessar para vários rapazes e garotas mas ainda assim meu azar se tornou mais evidente sendo rejeitada várias e várias vezes, mesmo com o coração rachado eu adquiri tal resiliência e me abstive de outros relacionamentos então romance não é mais um problema para mim quer dizer enquanto eu tiver as minhas novels e mangás shoujo eu não estou tão solitária assim.
Uma ressalva é que tenho o trabalho para me ocupar então a minha mente não vai ficar tão distraída com esse inconveniente, mesmo que pareça que esteja arranjando desculpas.
Fora do distrito residencial se encontrava a área corporativa de Tóquio da qual a empresa que eu trabalho pertencia á um pequeno conglomerado multinacional, acredito que vamos expandi cada vez mais se continuarmos investindo nas ações corretas.
Embora eu saiba dirigir não há necessidade de usar um transporte até porque eu sou bem receosa no que diz respeito á conduzir um veículo então opto por vir para cá de metrô ou até mesmo de ônibus, no caso a primeira opção é a mais viável já que não está nevando por hoje.
Cheguei até lá rapidamente graças á linha férrea interna depois de seguir por um longo trecho acabei chegando em frente ao prédio principal.
— Hey! Senpai!
— Hm? Ishida-Kun.
Essa voz, é um dos meus calouros desse ano. Ishida é um jovem bem animado, ele se aproximava de mim radiante com um sorriso, sua felicidade é invejável mesmo que ainda seja o começo da tarde.
— Boa tarde, chegou bem na hora do encerramento do intervalo, as vezes me esqueço que você é bem pontual. - disse á ele -
— Poderia dizer o mesmo de você senpai, nunca se atrasa mesmo em um dia tão casual, embora seja sub-chefe de departamento ainda chega no mesmo horário que nós os funcionários normais.
Funcionários normais, ele ainda me trata como uma superior, apesar de ser a maneira correta na relação de chefe e empregado eu ainda me sinto incomodada em ser mencionada dessa maneira.
— Deixe de besteira, mesmo com a diferença de cargos ainda somos da mesma firma, que exemplo eu seria para os meus calouros se eu chegasse a hora que quisesse.
— Tem razão senpai.
Repentinamente ele parou no meio do caminho enquanto estávamos prestes á entrar na empresa, ele está me fazendo uma saudação bem formal.
— Eu quero agradecer á você por ter coberto meu último turno, me desculpe de abusar da sua boa vontade outra vez! - falou o rapaz se curvando -
— Isso? Não é nada de mais, devemos nos ajudar quando possível não é mesmo? Ainda mais se tratando de um pai de primeira viagem.
Mesmo jovem ele acabou se tornando pai, esses jovens com hormônios aflorados acabam fazendo qualquer loucura, isso por si só seria motivo para julgá-lo, mas com o tempo que ele tem aqui na empresa e em meio ás nossas conversas em happy hour eu pude compreender um pouco da sua situação.
Ambos, ele e sua noiva eram inconsequentes não sei quanto ao seu passado mas parece que ele aos poucos foi entrando no eixo assim como ela e então repentinamente ele nos surpreende com a notícia da gravidez dela, dali em diante segundo ele mesmo faz o melhor que for para se tornar um homem decente para seu filho, um ótimo exemplo de superação vale dizer.
— Hehe, a minha noiva e eu temos que segurar as pontas, não está sendo fácil para ela lidar com a gravidez, os enjoos constantes sempre a deixam inativa.
— Então é por isso que você deve estar perto dela em momentos assim, ela necessita da sua presença então não se preocupe em "abusar" da minha boa vontade. *pisca*
— Senpai...Você é mesmo um anjo!
— Deixa disso, eu apenas gosto de ajudar não é nada de mais.
Ele sempre exagera ao meu respeito assim como os outros, eu apenas gosto de ajudar assim que possível e quando está ao meu alcance.
Mesmo que eu tenha muitos conselhos para lhe dar ainda assim é frustrante que meu kouhai tão jovem não seja virgem! Ele sempre me pede conselhos de como agir em diversas situações eu tenho que transparecer! Dou o meu melhor para não decepcioná-lo sendo sua senpai mas claramente eu estou mentindo para ele em vários conceitos!
Ele continuou me contando as novidades da agitação em sua casa e seus planos para o futuro enquanto pegávamos o elevador até o terceiro andar, olhando a hora em meu relógio mais uma vez percebo que estamos prestes á encarar a corrida de uma habitual tarde de sexta-feira, dia típico que todos os funcionários dão o seu máximo para não terem mais trabalhos durante o fim de semana e curtirem a sua folga.
E...vamos lá!
No instante em que as portas do elevador se abriram podia ver que os calouros estavam andando para todos os lados com seus relatórios em mãos enquanto os veteranos estavam terminando os seus nos confortos de seus computadores, realmente certas coisas nunca mudam mesmo com a passagem do ano.
— Boa tarde May-San!
— Oh, Boa tarde!
— Olá, May-San.
— Olá!
Sempre sou recebida com uma saudação no instante em que chego naturalmente estou habituada á cumprimentá-los de volta assim como manda a minha conduta diária, rostos de todos os tipos, alegres, tristes, nervosos, jovens e velhos estão diante de mim agora.
— May-San, poderia dar uma olhada no meu último relatório? Não quero cometer mais nenhum erro.
— Sem problemas! Coloque-os na minha mesa assim que terminá-lo.
— Sim Senhora.
Antes mesmo de chegar em minha mesa já podia ver alguns dos meus próprios relatórios já empilhados, de fato eu já havia adiantado todo o meu trabalho no dia anterior então eu estava com a minha agenda pessoal livre, se eu fosse seguir um dos conselhos do Ishida eu podia simplesmente tirar minha tarde de folga e curtir com outras pessoas...O que seria uma completa mentira da minha parte, provavelmente usaria o tempo livre para jogar ou terminar de ler as minhas novels tudo isso debaixo de um futon com uma lata de cola gelada, não há nada melhor do que isso.
Mas ainda assim eu sentiria certo remorso já que todos estariam se esforçando e eu estaria atoa então vir aqui foi a minha melhor escolha.
— Vê-la dessa maneira logo á essa hora é algo que realmente motiva senpai, certo! Vou me esforçar ao máximo para compensar o tempo perdido! Te vejo depois senpai!
— Só não se force muito tá legal.
— Pode deixar.
E lá se foi ele com toda empolgação de um funcionário novato, chega a ser contagiante na maioria das vezes eu apenas queria uma pequena fração da sua energia para lidar com as coisas do meu dia á dia, apenas o café em lata e nem mesmo os energéticos não me ajudam a dar conta de toda a carga de trabalho ,mesmo assim isso não me abala, assim como todos os dias vou dar o meu melhor.
— *boceja*
[...]
O dia correu bem como o esperado, eu já havia adiantado uma boa parte da papelada anterior e estou apenas dando uma última revisada e conferindo outros relatórios para verem se estão batendo com o meu.
Mesmo utilizando um computador ainda assim devo conferir os documentos impressos para que não haja nenhuma discrepância e consequentemente evitando o retrabalho para todos da empresa.
Para me auxiliar com as energias eu estava tomando minha segunda latinha de café expresso extra forte, mas isso não era o suficiente, quando se é alguém como eu o café se torna algo inútil, como um tipo de remédio placebo para tratar pacientes com dependência química, no meu caso a cafeína seria equivalente.
— *Boceja*
— May-San, quando foi a última vez que você dormiu?
— Hm? Gerente? Não se preocupe comigo *boceja* eu só acabei exagerando na noite passada não é nada de mais, vou apenas terminar esse relatório antes de ir.
O gerente e eu somos uns dos últimos a saírem do prédio, ele é um pouco mais velho do que eu mesmo que nossos cargos sejam equivalentes ele ainda é o meu superior no que diz respeito á experiência na empresa.
— Tem certeza que pode dar conta do trabalho? Deveria ir para casa descansar posso te levar até seu apartamento se quiser.
— Não será necessário Gerente, confie em mim, cá entre nós não é a primeira noite que passo em claro aqui na empresa.
— *Sorri* Por que eu ainda tento convencê-la. *Suspira* May-San você é realmente uma excelente funcionária modelo, mas não cobre muito de si, sei que nenhum dos seus companheiros está abusando de sua boa vontade mas ainda assim é uma boa quantidade de relatórios para assinar.
Ele apenas olhou preocupado para pilha de documentos em cima da minha mesa, já lidei com maiores em dias mais agitados tenho certeza que posso dar conta disso aqui sem problemas, só preciso assiná-los e dar uma breve revisada.
— Heh heh... Não precisa se preocupar, eu vou dar conta disso quanto mais cedo terminarmos esse trabalho menor será o serviço do próximo mês, mande um abraço para sua esposa, quando sair reportarei ao vigilante para trancar o prédio.
— Tudo bem mas tire o dia de folga amanhã para descansar, ordens de seu gerente.
— Sim Senhor.
Ele acabou indo embora me deixando sozinha, acredito que estivesse ansioso para ver sua esposa ou quem sabe seus netos, o gerente é bem misterioso no que diz respeito á sua vida pessoal mas eu não sou do tipo que se intromete na vida alheia a não ser que tenha certa intimidade com a pessoa.
*Boceja* Agora parando para pensar é uma pilha realmente grande, mas não tem problema, eu não vou deixar o trabalho se acumular para o dia seguinte ainda mais agora que os peguei, terei que lidar com isso como uma autopunição por ter pego mais do que meus braços suportam.
Continuei assinando alguns documentos e revisando algumas coisas aqui e ali...mas conforme eu vou lendo esses papéis...minha visão acabou ficando turva brevemente...
Eu estou ficando com sono? Talvez seja isso ou o meu discernimento está comprometido por alguma coisa, as letras estão cada vez mais foscas e eu já não estou entendo mais o que está escrito no papel está tudo uma grande bagunça...
Quem sabe se eu tomar mais desse café...
Pluf!
Que droga...eu acabei derramando tudo em cima dos papéis, isso vai ser um problema lá na frente...terei que refazer isso no fim de semana todo...
Eu não consegui erguer a lata, meus braços eles não se mexeram direito, eu não estou sentindo muito o meu corpo apenas a minha mente está funcionando, será que a exaustão está tomando conta de mim?
Droga, eu sabia que aquela rotina de ficar lendo novels e ficar jogando até tarde cobraria aqui na empresa, mesmo que eu durma por um tempo relativamente curto e acorde disposta no dia seguinte eu mesma reconheço que essa não é uma rotina saudável...
Eu não consigo manter a minha cabeça de pé...Ouch! Acabei batendo com ela na mesa mas acabei não sentindo dor alguma...Talvez eu estivesse muito exausta para sentir alguma coisa...Meu corpo ele está completamente esgotado...Minhas pernas e braços que estavam dormentes eu já não estou os sentindo mais...não estou sentindo mais nada...apenas mantenho o meu raciocínio...seria isso o resultado de uma fadiga por anos de uma rotina de sono completamente errada?
Quem sabe...se eu dormir aqui só um pouco...tenho certeza que o vigilante vai me acordar em breve...ou quem sabe vai ligar para a emergência para resolver esse caso...caramba, eu vou tomar um sermão daqueles do gerente e terei que passar no RH depois para elaborar um pedido de desculpas por tal inconveniente...Que droga...
Á TODOS AQUI PRESENTES TESTEMUNHEM DE ANTEMÃO O RESULTADO DESSE RITUAL PROFANO, A INVOCAÇÃO DO HERÓI QUE TRARÁ EQUILÍBRIO Á NOSSA TERRA E QUEM SABE AO MUNDO!
ESPERE! TEM ALGO DE ERRADO! A INVOCAÇÃO ELA...ELA...FALHOU?!
Mas que droga é essa que eu estou escutando? Isso é algum tipo de sonho? Eu não estou enxergando nada...Ainda assim a exaustão permanece sob meu corpo ele parece tão pesado quanto estava antes...Talvez dormir seja a melhor opção para recobrar os meus sentidos...
Com um pensamento cético, Sato Maylene acabou deixando seu mundo.
Continua...