A luz do sol nascia pálida sobre uma vila costeira esquecida, no extremo do East Blue. As barracas de madeira rangiam a cada rajada de vento marinho. E no meio dos becos lamacentos, onde o lixo se acumulava junto aos ratos, um menino se arrastava em busca de algo para mastigar. Esse menino se chamava Kev D. Jun.
Tinha apenas oito anos, mas o corpo já esquelético refletia uma vida de privações. Seus olhos — grandes, fundos e injetados de raiva — eram a marca mais forte que carregava. Observando-o rastejar pelos restos de peixe num caixote jogado no porto, ninguém suspeitaria que, um dia, ele viria a desafiar governos, piratas lendários e até o próprio conceito de liberdade.
Naquela manhã, Kev revirava cascas, ossos e farelos, afastando moscas com a mão. A fome era tanta que seu estômago roncava alto, abafando o barulho do mar. Com um gesto rápido, ele pegou um resto de pão bolorento. Não se importou com o gosto terrível — o que importava era sobreviver mais um dia.
Ainda mastigava o pão quando sentiu algo duro entre os dentes. Cuspiu o pedaço no chão e notou a presença de uma pedrinha branca. Não era nada valioso, mas seu brilho discreto fez Kev apertá-la na palma como se fosse uma pequena joia. Talvez fosse apenas uma alucinação provocada pela fome, mas havia algo naquela pedrinha que lhe deu um fio de esperança. Ou, ao menos, uma distração da miséria diária.
O porto daquela vila era conhecido por duas coisas: a pesca farta e o desembarque esporádico de piratas. Quando um navio pirata surgia no horizonte, os moradores se escondiam atrás de portas trancadas, deixando a orla entregue ao caos. A Marinha raramente aparecia, pois a localização geográfica tornava aquela vila um canto isolado, sem interesse estratégico ou comercial.
Kev conhecia cada beco, cada atalho, cada barril onde pudesse encontrar migalhas. Há tempos ele dormia encolhido em um dos depósitos abandonados perto do cais, dividindo espaço com ratos que, curiosamente, eram seus melhores companheiros. E, naquele dia, enquanto checava cada canto em busca de algo para comer, ouviu uma conversa que mudaria seu destino.
Do outro lado de um barril, dois homens discutiam em voz baixa. Falavam sobre um pirata procurado, cujo cartaz de recompensa já passava dos dois milhões de berries. O tom de voz dos homens indicava que estavam tramando algo. Kev esticou o pescoço para ouvir melhor, curioso:
— Se o pegarmos e entregarmos à base mais próxima da Marinha, vamos ficar ricos — sussurrou o primeiro homem.— Mas ele é perigoso. Ouvi dizer que cortou o braço de um tenente numa única investida — respondeu o segundo, tremendo um pouco.— O risco vale a pena. Com dois milhões de berries, a gente sai dessa vida miserável.
Kev ficou paralisado. Em sua mente, aquela cifra soava como a solução de todos os problemas. Dois milhões? Isso significaria comida ilimitada, roupas limpas, talvez até um teto de verdade. Um relâmpago de ambição atravessou seu peito, algo que nunca sentira antes. A fome se transformou em um fogo interno, um desejo de poder e sobrevivência. Por que não capturar esse pirata? Por que não provar ao mundo que ele, Kev, era mais que um rato de beco?
Ele não sabia manejar espadas, não tinha arma de fogo. Mas tinha astúcia. Crescera naquela lama, aprendera a sobreviver com quase nada. Se usasse a inteligência, talvez pudesse atrair ou enganar esse pirata — ou pelo menos descobrir onde ele se escondia. A ideia parecia maluca, mas para um garoto que não tinha nada, apostar em algo impossível era a única forma de viver algo grande.
No fim da tarde, Kev voltou ao depósito onde dormia, segurando firme a pedrinha branca. Deitou-se sobre panos sujos, tentando pensar em como encontrar aquele pirata. As informações que ouvira eram escassas; não sabia o nome do criminoso, apenas que havia chegado ao East Blue depois de arranjar confusão no South Blue. Enquanto tentava rabiscar um plano na sua cabeça, o som de passos perto do depósito chamou sua atenção. Assustado, escondeu-se atrás de sacos de grãos vazios.
Um homem alto e de braços fortes entrou. Vestia um manto rasgado e tinha uma cicatriz no rosto. A postura era ameaçadora. Kev prendeu a respiração, perguntando-se se seria um dos tais piratas ou um marujo da vila. O homem vasculhou o local, provavelmente em busca de algum objeto ou vítima. Quando seus olhos cruzaram com os de Kev, uma expressão de surpresa surgiu em seu semblante.
— Ora, ora, tem um rato aqui... — murmurou, avançando lentamente.Kev engoliu seco, recuando. — Eu... eu não tenho nada — disse, com a voz fraca.— Não parece que tenha algo, mas talvez saiba de alguma coisa valiosa. Essa vila esconde contrabandistas, certo?
O homem caminhou até Kev e, com a mão grande e suja, o levantou pela gola. Kev tentava se soltar, mas a força do estranho era imensa para seus bracinhos esquálidos.
— Me solte! — gritou o menino, temendo levar uma surra.— Eu é que faço as perguntas. Você vai me contar onde ficam os estoques de rum, comida e tesouros desta pocilga. E se não cooperar... — O homem aproximou um punhal do rosto de Kev.
Naquele momento, um ódio visceral tomou conta do garoto. Ninguém mexia nele assim impunemente. A fome, o medo, a humilhação... tudo se condensou num desejo cego de sobrevivência. Ele lembrou-se do pirata de dois milhões de berries, lembrou-se de como estava disposto a arriscar tudo para sair daquela vida e, sem pensar, mordeu o braço do homem com força total.
O homem urrou de dor e soltou Kev no ato. O garoto aproveitou a deixa para dar uma corrida em direção à porta. Mas o homem, furioso, arremessou o punhal, que passou de raspão pela bochecha de Kev, deixando um corte fino e ardido. Sangue escorreu devagar. Kev não parou para sentir a dor; apenas correu, correu como nunca, desaparecendo pelos becos lamacentos. O sangue pingava e se misturava com a chuva que começava a cair.
Era assim que funcionava o mundo: ou você mata ou é morto, pensou Kev. Se quisesse capturar um pirata perigoso, precisava de forças, de estratégia — qualquer coisa além do próprio desespero. A raiva queimava em seu peito. Por que precisava ser tão difícil? Por que ele tinha que sofrer assim? Sem perceber, apertou a pedrinha branca no bolso. Um dia, prometeu a si mesmo, mudaria essa realidade.
A chuva aumentou, e Kev se escondeu embaixo de uma tenda abandonada na beira do cais. Ofegante, tremendo de frio, tocou o corte no rosto. Aquela cicatriz seria um lembrete de que ninguém mais o pisaria. Ele precisava ficar mais forte e, sobretudo, deixar de ser um alvo fácil.
Passou-se uma semana. Nesse período, a vila mergulhou em boatos sobre um pirata recém-chegado — alguém chamado Morgan "Dente de Ferro" — com uma recompensa de cinco milhões de berries. Kev ficou boquiaberto ao descobrir que o valor era bem maior que os dois milhões que ouvira. Se conseguisse capturar Morgan, poderia escapar daquela vida miserável.
Ele não sabia por onde começar. Mas percebeu que um grupo de caçadores de recompensa estava desembarcando na vila, trajando capas e chapéus surrados, porém com postura de veteranos. Eles conversavam no canto do porto, olhando mapas e cartazes de procurados, sem dar atenção às crianças que passavam. Kev se aproximou de fininho, tentando escutar.
— Morgan deve estar se escondendo em algum lugar perto do centro, espalhando boatos falsos para despistar. — disse um dos caçadores.— Precisamos de um guia local. Não conhecemos essa vila e, pelo que se vê, a Marinha não liga para nós — respondeu a mulher do grupo.
Kev sentiu o coração acelerar. Se conseguisse ser útil a eles, poderia ganhar algum trocado — ou até aprender algo sobre o mundo da caça. Mas como convencer aqueles veteranos a aceitá-lo?
Ele esperou um momento oportuno. Quando a mulher do grupo se separou dos demais para checar o navio, Kev se aproximou rapidamente:
— Com licença... — murmurou, baixo. — Eu posso ajudar vocês a encontrar o esconderijo de Morgan.A mulher ergueu uma sobrancelha, analisando o menino magro, sujo e com um corte cicatrizando no rosto.— E o que um garoto como você saberia?— Eu conheço cada rua, cada beco e cada porão. E posso conseguir informações sem que ninguém desconfie...Ela cruzou os braços. — O que quer em troca?Kev respirou fundo. — Comida e... parte da recompensa. Qualquer parte, não importa o tamanho.
A mulher riu. — Você é corajoso, hein? Tá disposto a arriscar o pescoço por isso?
Ele pensou em todas as noites que passara faminto, todas as brigas que evitara por ser fraco, e no punhal que quase o matara dias atrás. Sim, ele arriscaria a vida. Porque do jeito que estava, já não restava muita coisa a perder.
— Tô dentro — respondeu, com firmeza.Ela o mediu por alguns segundos, talvez ponderando se um moleque assim seria de alguma utilidade. Por fim, deu de ombros. — Muito bem, pirralho, eu me chamo Renny. Se me fizer perder tempo, te largo no esgoto. Se me trair, te mato eu mesma. Fechado?— Fechado.
Era um pacto cheio de ameaças, mas para Kev soava como a única chance de entrar nesse mundo. Se conseguisse capturar Morgan "Dente de Ferro" ao lado desses caçadores, poderia ganhar o suficiente para nunca mais comer lixo. Além disso, teria um vislumbre de como funcionava a vida de um verdadeiro caçador de recompensas — um passo inicial para um destino muito maior do que ele mesmo podia imaginar.
O sol se punha, pintando o céu de laranja. Kev olhou para o porto, sentindo o vento no rosto. Apesar do medo e da incerteza, uma brasa de excitação queimava em seu coração. Ele não sabia que, anos mais tarde, seria reconhecido como um dos maiores nomes a cruzar os mares. Não fazia ideia de que, em sua busca por força e vingança, acabaria descobrindo o significado da palavra "liberdade" da forma mais cruel e intensa possível.
Naquela noite, tudo que importava era sobreviver e dar o primeiro passo rumo a um futuro menos miserável. Se aquele futuro envolvia trair ou enganar piratas, pouco lhe importava. A vida era um jogo sujo, e só os mais fortes ou astutos conseguiam respirar fora da lama.
Ele tocou de leve a cicatriz no rosto e apertou a pedrinha branca em seu bolso. Com um brilho nos olhos, murmurou baixinho:
— Eu vou conquistar o que eu quiser, custe o que custar...
E assim começou a história de Kev D. Jun, o menino do lixo que, com fome e ódio no peito, daria início à lenda do Dragão Carmesim. A chama que nascia em seu coração era pequena, mas cresceria ao ponto de engolir o mundo em chamas, mudando destinos e redefinindo a própria ideia de poder