Foram tantas coisas, tantas provações. Eu deveria estar feliz por estar de volta. O avião pousou há algumas horas, e eu já podia sentir o calor úmido de cidade brasileira, o calor, a vida nova diante de mim grudando na minha pele. Mas a verdade é que minha alma ainda estava presa lá, naquele inferno de onde consegui escapar as custas de muita dor e sofrimento. As pessoas, ou melhor, nenhum pessoa deveriam ser submetida a tais condições na qual fui obrigada a me adaptar, a adaptar minha mente de que eu não tive culpa do que estava acontecendo comigo e que ela teria que ser forte se quisesse sair viva de tudo aquilo que estava num passado não tão distante. Seria desafiador recomeçar com a minha bagagem mental, estava sim dilacerada em ter a oportunidade de recomeçar e não poder ajudar aos que sofriam os mesmos tratamentos junto comigo. Meu nome é Nicolle, e eu passei os últimos anos acreditando em uma mentira. Uma promessa de brilho e sucesso no ballet, que me levou direto para as mãos erradas. Eu sonhava com palcos iluminados, aplausos ensurdecedores, liberdade... O que encontrei foi uma jaula dourada, onde cada movimento meu era controlado, cada esperança arrancada aos poucos, como se eu fosse apenas um fantoche nas mãos deles, e sim, eu era exatamente isso. Deixei meu corpo ser usado, fiz coisas que prefiro não lembrar; aprendi a mentir, a agradar e sofrer calado e me aproveitar de qualquer oportunidade para chegar onde estou na condição de mulher livre.
Agora estou aqui, mas quem eu era antes já não existe mais. Voltar para casa não significa voltar para mim mesma. E eu não sei se um dia conseguirei encontrar um caminho.
Bati na porta do apartamento de Carina assim que um homem saiu e deu de cara comigo, ele me deixou entrar e disse que ela estava em casa, ainda existem pessoas que confiam nas outras, pensei. Esse era um dos poucos contatos que guardei e era a única localização que tinha de um conhecido aqui no Rio de Janeiro. Agradeci aos céus por lembrar direitinho onde ela morava e saber que ela ainda mora aqui. Eu tive ajuda para voltar da Europa, mas queria muito começar sem certas amizades que me levaram ao abismo. Insisti em bater, ela poderia estar dormindo e insistir mais um pouco a ponto de gritar seu nome sem me importar com os outros inquilinos do local.
— Já estou indo! Quem é essa hora? — Me alegrei quando a escutei sua voz do outro lado da porta.
Com o olho mágico ali, ela certamente nem verificou quem estava do lado de fora esperançosa em ver alguém que um dia disse para não ir, não arriscar tudo por uma promessa de sucesso e fama milagrosa. Eu era muito nova, nova demais para reconhecer sinais de uma cilada.
— Nik! — Carina me olhou incrédula quase teve uma síncope e deu um passo para trás e logo me puxou e me deu um abraço apertado e voltou a me encarar.
Nossos olhos se encheram de lágrimas e foi um emocionante reencontro, estava feliz, me senti insegura e amada como não me sentia há muito tempo. Carina se sentou e eu que tive que acalma-la.
— Para mim, estava morta! Esdras disse que não te localizou depois daquele escândalo que se meteu pela Espanha. Vem aqui! — Ela me abraçou novamente, me fez sentar ao seu lado e me encarou por um tempo. Encostamos nossas testas e sentimos totalmente conectado aquele momento.
— Eu saltei agora a pouco de um avião. Ainda não caiu a ficha que estou em solo brasileiro! Foram tantas coisas... Eu estou com fome, tem o que comer?
— Tem, voltei agorinha da padaria e passo um café rapidinho para gente, vem para a cozinha! Quer ir ao banheiro, quer trocar de roupa, tomar um banho? Você vai ficar aqui um tempo, né? Cadê suas malas?
Como sempre, Carina me enche de perguntas sequenciais.
— Carina, eu estou bem. Só estou com fome mesmo! As minhas coisas estão no hotel. Eu cheguei na madrugada e tive que esperar para te procurar!
— Amiga, eu fico muito feliz em te ver de verdade!
— Eu também. Eu pensei que esse momento nunca fosse acontecer, Carina. — Disse emocionada.
Veio um turbilhão de emoções ao lembrar de quanto sofrimento, de quantas vezes precisei sorrir querendo chorar, tendo que esconder a injustiça que estava vivendo. Nos acalmamos, Carina passou um café tão bom que parece que ele me despertou para o agora. Eu estava de volta a minha terra, ao meu país, as minhas vontades...